
Por causa de discussões sobre as chuvas intensas que têm atingido Portugal e as consequentes descargas das barragens, voltou a surgir nas redes sociais uma declaração de Catarina Martins quando ainda era coordenadora do Bloco de Esquerda. Disse que “estamos sempre a perder água” por causa da evaporação. A SIC Verifica.
Nas vésperas das eleições legislativas de 2019, durante um debate televisivo com Assunção Cristas (CDS-PP), Catarina Martins, então coordenadora do Bloco de Esquerda, afirmou que “temos barragens a mais, as barragens provocam evaporação, portanto nós estamos sempre a perder água”, num argumento contra a construção de novas barragens e numa altura em que o país se debatia com o problema da seca.
Esta frase voltou recentemente a circular nas redes sociais, à boleia de discussões sobre as chuvas intensas que têm atingido Portugal continental e as consequentes descargas das barragens.
As barragens provocam evaporação?
Será verdade que a existência de barragens em Portugal causa uma perda permanente de água por evaporação que justifique dizer que “estamos sempre a perder água”? A resposta é sim. Qualquer superfície exposta à atmosfera perde água para evaporação. Isso inclui lagos naturais e reservatórios artificiais (barragens). O estudo mais recente sobre o tema em Portugal, publicado no ano passado e medido em várias albufeiras no Alentejo e no Algarve, mostra que a taxa média diária de evaporação nas barragens pode ir de cerca de 0,8 mm/dia no inverno a 4,6 mm/dia no verão, com um valor anual médio de cerca de 2,7 mm diários.
Portanto, a afirmação de que “as barragens provocam evaporação” não é falsa. Mas isso significa que “estamos sempre a perder água”, como afirmou Catarina Martins? Não. A evaporação faz parte do ciclo natural da água e ocorre, por exemplo, em oceanos, rios e lagos. A água que evapora volta a cair sob a forma de chuva, noutro local, como parte de um ciclo dinâmico global. Ou seja, a água não ‘desaparece’ simplesmente porque se evaporou de um reservatório, ela integra o ciclo natural e pode voltar à bacia hidrográfica através da precipitação.
As barragens podem perder água por evaporação em maior proporção do que um rio, principalmente quando têm uma grande superfície. Estudos internacionais revelam que, em regiões áridas e semi-áridas, a evaporação pode representar até “cerca de 15% da água armazenada num reservatório por ano”. Um valor considerável, mas que não implica “perda total” de água do sistema.
Quando a frase de Catarina Martins foi alvo de polémica – e até chacota – nas redes sociais, em setembro de 2019, muitos comentários feitos por especialistas salientaram que a construção e gestão de barragens é um instrumento clássico e essencial da gestão de recursos hídricos e que a evaporação é um processo natural, que ocorre igualmente em lagos, albufeiras, zonas húmidas e superfícies naturais de água.
O papel das barragens na gestão da água em Portugal
Em Portugal existem atualmente cerca de 260 grandes barragens, segundo dados da Agência Portuguesa do Ambiente (APA). Essas barragens têm uma altura entre 10 e 15 metros ou superior a 15 metros e um volume de armazenamento igual ou superior a 1 hectómetro cúbico (1 hm³), ou seja, cerca de 1.000 milhões de litros de água. Existem também as pequenas barragens, em maior número, construídas para diversos fins.
“As barragens têm diferentes utilizações, como a rega, o abastecimento público e a produção de energia. (…) As barragens não evitam as cheias nos rios, mas podem atenuar os seus efeitos, sobretudo para cheias frequentes e de média frequência”, explica ainda a APA.