Vicente Gil: “Há qualquer coisa que, por ser cigano, se vê o mundo de forma diferente”

Vicente Gil emociona no ‘Alta Definição’: “Há qualquer coisa que, por ser cigano, se vê o mundo de forma diferente”

Vicente Gil foi o convidado mais recente de Daniel Oliveira no programa ‘Alta Definição’, da SIC, numa conversa intimista que tocou profundamente quem assistiu. O jovem ator, atualmente em destaque na novela ‘Vitória’, abriu o coração para falar de família, identidade, preconceito e pertença, num testemunho marcado pela honestidade e pela emoção.

Desde o início da entrevista, ficou clara a ligação fortíssima à mãe, uma mulher que Vicente descreve como o grande pilar da sua vida. Atriz, ativista e figura inspiradora, foi ela quem lhe transmitiu valores fundamentais e o amor pela arte.
“Ver a tua mãe dedicada a causas tão nobres fez o quê por ti?”, perguntou Daniel Oliveira. A resposta surgiu sem hesitação:
“Tanta coisa… fez-me desejar mais. Fez-me entender o privilégio que tenho conquistado com as minhas próprias mãos e de poder ter estudado também.”

Comovido, o ator falou do impacto profundo que a mãe teve não só no seu percurso profissional, mas também na sua formação enquanto ser humano.
“É brutal ver o trabalho da minha mãe, e que falta a tantas comunidades. Gostava que a minha mãe pudesse ser a mãe de muita gente”, confessou. “É uma grande mulher cigana, com um instinto muito único. Tem o dom da palavra e é especial porque é mesmo assim uma ideia de farol. Foi ela que me ajudou a construir.”

A conversa levou-o de volta à infância, num exercício de memória carregado de ternura e orgulho.
“Tenho saudades de uma coisa na infância, que era perceber que havia mais”, revelou. “Quando olho para trás, sinto um grande orgulho e uma grande nostalgia também pela minha mãe, que conquistou muito para os filhos. Havia problemas e ela nunca se escondia. Isso deu-nos uma grande inteligência emocional para lidar com certas coisas.”

Vicente sublinhou ainda o papel decisivo da mãe no seu caminho artístico, recordando o esforço incansável para que pudesse estudar teatro.
“Ela fez os possíveis e os impossíveis para eu conseguir entrar na escola de teatro. Sempre verbalizou o amor que tinha por mim”, contou. “Mesmo hoje, não dá para fazer uma chamada sem uma palavra de carinho. Essa troca sempre foi muito natural.”

A entrevista ganhou ainda maior profundidade quando o ator falou abertamente sobre identidade cigana e preconceito, temas que atravessam a sua vida desde cedo.
“À primeira vista, eu claramente não tenho a imagem do que se pensa que é um cigano”, afirmou. “Existe uma ideia falsa, pejorativa, sobre o que é ser cigano.”

Para Vicente, essa desconstrução provoca surpresa — e reflexão — em quem o conhece:
“De repente querem falar, questionar-se, debater os próprios preconceitos. Só por ser cigano, já estou a acrescentar alguma coisa às equipas.”

Mas nem sempre essa realidade é leve. O ator partilhou episódios dolorosos vividos ao longo da carreira:
“Já ouvi coisas muito desagradáveis no trabalho, não aqui na SIC, ainda bem. Já estive a filmar e ouvir pessoas a gozarem com ciganos. Fico em estado de choque. Aquilo estraga-me o dia”, confessou. “Detesto qualquer comentário pejorativo, sem fundamento lógico.”

Falou também do peso do estigma e das dúvidas constantes:
“Há sempre um ponto de partida negativo. São poucas as pessoas ciganas com quem trabalho e é natural haver muitas dúvidas.” Ainda assim, sublinhou algo que considera essencial:
“Há qualquer coisa mesmo de ser cigano… na forma como se vê o mundo, no respeito pelo outro, no sentido de comunidade tão forte. Eu gostava que toda a gente tivesse isso.”

Questionado sobre quando sentiu mais intensamente o estigma, Vicente foi claro:
“Na escola, principalmente”, respondeu. “Achávamos que era correto dizer que não éramos ciganos por causa do nosso bem-estar.”

No encerramento, o ator deixou reflexões fortes sobre o racismo estrutural e a necessidade de diálogo:
“As estruturas públicas são racistas e xenófobas. As pessoas têm a capacidade de dizer, sem dizer, que não pertencemos ali”, afirmou. “Quando falo destes assuntos é para abrir discussões e irmos mais longe.”

Sem fugir à autocrítica, reconheceu também que há mudanças a fazer dentro da própria comunidade cigana:
“Há assuntos fraturantes. Como cigano, há coisas com que não concordo. Mas muita coisa está a mudar, como os casamentos com menores. Para entender uma cultura, é preciso entender a sua história.”

Por fim, quando Daniel Oliveira lhe perguntou se o facto de a mãe ter sido “mãe e pai” o tornou mais forte ou mais frágil, Vicente respondeu com convicção:
“Mais forte. Há qualquer coisa de fantástico nestas mulheres. São uma força da natureza. Estão em todo o lado”, disse. “Foi brutal ver como ela arranjou mecanismos para estar sempre com todos os filhos.”

Uma entrevista que não foi apenas um retrato de um ator em ascensão, mas um testemunho poderoso sobre identidade, amor, resistência e humanidade — e que deixou claro que, para Vicente Gil, ser cigano é também uma forma especial de olhar o mundo.

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