
O líder do Chega já está a ensaiar a narrativa para o caso de contribuir para a queda de um Governo da AD nos próximos meses. Diz-se “humilde” perante a atitude de arrogância de Montenegro, e responsabiliza-o por uma crise política, se este não quiser negociar orçamentos (retificativo inclusive) com um partido que teve mais de um milhão de votos
Com a força de mais de um milhão de votos no bolso e um resultado histórico para capitalizar, André Ventura antecipou-se na tentativa de condicionar a curta vitória da Aliança Democrática (AD) e responsabilizar Luís Montenegro pela instabilidade se não houver acordos com o Chega. “Se não houver negociação, voto contra o orçamento”, assumiu esta segunda-feira, numa entrevista TVI/CNN. O líder da direita radical faz pressão e está a começar a construir esta narrativa, para o caso de haver uma nova crise política: “Não é o Chega que faz cair o Governo. É o Luís Montenegro que se demite de governar”.
“Desde o início que tivemos a atitude certa, da humildade”, foi dizendo o líder do Chega ao longo da entrevista, por entender que os portugueses penalizam a arrogância e que não percebem como é que “o voto de um milhão de pessoas que saíram de casa” pode ser ignorado. Menos de 24 horas depois de ter festejado os resultados eleitorais, o líder do Chega começa a ensaiar argumentos para inverter a tendência eleitoral de penalização dos partidos que derrubam governos.
“Todos os cenários em aberto”
A pressão de André Ventura sobre Luís Montenegro aconteceu num dia que foi passado pelos comentadores a especular sobre qual seria o posicionamento do Chega em relação a um Governo da AD. Está tudo em aberto: “Eu disse que não excluía nenhum cenário”, afirmou na entrevista à TVI e à CNN, inclusive a apresentação de uma moção de rejeição do programa da AD: “Pode não ser apresentada” se houver um Governo que cumpra pelo menos três condições: “Imagine um Governo que combate a corrupção, e aumenta as pensões e aumenta polícias e militares”. Neste caso, dependendo do programa, André Ventura admite não apresentar ou votar uma moção de rejeição.
Outra condição para um acordo “é uma convergência sobre a composição do Governo, as medidas principais e o que se pretende alcançar”. Embora não exija a sua presença num Executivo, diz fazer “sentido serem os dois partidos a decidir a composição do Governo”, através de um “acordo”, por exemplo para escolher independentes.
Caso diferente é a votação do Orçamento do Estado, como já tinha dito durante a campanha: “Se não houver negociação, é humilhar o Chega”, e isso o líder do Chega diz que não admitirá, em nome do milhão de portugueses que votaram em si. Mas a promessa de Luís Montenegro foi, exatamente, a de que não haveria qualquer acordo ou negociação com o Chega.
Em todo o caso, se o PSD apresentar uma taxa fixa de IRS para os jovens, votará a favor, e fará o mesmo quanto à reposição do tempo de carreira dos professores, ou extinção progressiva do IMI.
Da mesma forma, Ventura diz-se disponível para trocar medidas-bandeira, como a prisão perpétua, por outras, como o pagamento de subsídio de risco a todas as forças de segurança. O argumento assenta numa dificuldade, porém: a prisão perpétua é inconstitucional e neste momento não há dois partidos que somem os dois terços necessários para mudar a constituição, portanto, seria uma moeda de troca sem qualquer valor.
No entanto, ao longo da entrevista, o líder do Chega não referiu uma das propostas e desafios que lançou aos partidos de direita durante a campanha como um Pacto para a Imigração, que anunciou logo no início da volta pelo país, ou uma carta de compromisso para resolver os problemas de militares, polícias e bombeiros. Também omitiu outras medidas que considerou urgentes, como o fim imediato das portagens no Algarve e no interior.