
A imagem parece simples, quase inofensiva — duas figuras lado a lado, imediatamente reconhecíveis por qualquer português. À esquerda, Cristiano Ronaldo, o maior nome do futebol nacional. À direita, André Ventura, líder do Chega e uma das figuras políticas mais polarizadoras do país. Mas foi precisamente essa justaposição visual que serviu de gatilho para uma das mais eficazes e perigosas peças de desinformação das últimas semanas.
Na publicação que começou a circular de forma viral, surge uma alegada citação explosiva atribuída ao futebolista:
“Cristiano Ronaldo sobre André Ventura: ‘Convidava-o para almoçar, temos muita coisa em comum’.”
A frase caiu como uma bomba. Em minutos, as redes sociais incendiaram-se com críticas, aplausos, insultos e debates acesos. Para muitos, parecia impensável; para outros, plausível o suficiente para ser partilhada sem qualquer verificação. Mas a verdade é simples e contundente: Cristiano Ronaldo nunca disse isto.
Não existe qualquer registo público, entrevista, vídeo, áudio ou declaração em que Ronaldo tenha mencionado André Ventura nesses termos — ou sequer mencionado Ventura. A publicação tem origem numa página do X/Twitter conhecida por produzir conteúdos de “paródia”, recheados de histórias inventadas, montagens e alegações falsas. O problema? Nada na publicação indicava claramente tratar-se de paródia, o que levou milhares de pessoas a tomarem a informação como verdadeira.
Segundo a análise — aqui apresentada com um tom mais dramático e reconstrução narrativa — trata-se de uma armadilha digital clássica: usar uma figura de enorme credibilidade e alcance global para legitimar uma narrativa política falsa. A ausência do aviso de “paródia” não foi inocente; foi precisamente o que permitiu que a mentira ganhasse tração e enganasse os mais incautos.
O contexto torna tudo ainda mais sensível. Esta falsa citação surge na esteira de declarações reais de Cristiano Ronaldo sobre um outro líder político associado à direita radical populista e frequentemente citado por André Ventura: Donald Trump. Numa entrevista recente, Ronaldo admitiu publicamente que gostaria de conhecer o atual Presidente dos Estados Unidos, elogiando a sua capacidade de “fazer as coisas acontecer”.
“Ele é uma das pessoas mais importantes, é uma das pessoas que quero conhecer. Desejo fazê-lo um dia, se tiver a oportunidade… Quero sentar-me com ele e ter uma boa conversa”, afirmou Ronaldo.
Foi precisamente esta declaração verdadeira que abriu espaço para a manipulação. Alguém pegou num facto real, distorceu-o e construiu uma mentira convincente, colando-a a uma imagem apelativa e emocionalmente carregada.
O resultado? Uma paródia transformada em “notícia”, uma mentira tratada como opinião legítima e um exemplo claro de como, na era digital, a fronteira entre humor, propaganda e falsidade pode desaparecer em segundos.
Cristiano Ronaldo continua a ser usado — sem consentimento — como instrumento de narrativas que nunca subscreveu.
E este caso deixa um aviso claro: nem tudo o que parece verosímil é verdade — e nem toda a mentira vem com aviso.