Esta é a primeira vez, em 40 anos, que o País escolhe quem vai ser Presidente da República, numa segunda volta das eleições.

Os candidatos presidenciais António José Seguro e André Ventura estiveram esta terça-feira frente-a-frente no último debate que marca a corrida a Belém.
Este é o primeiro e único debate entre os dois candidatos apurados para a segunda volta das eleições presidenciais, que acontece já no próximo dia 8 de fevereiro. Ao longo de 75 minutos, o socialista António José Seguro e o líder do Chega, André Ventura, discutiram o futuro de Portugal e as expectativas que têm caso assumam o cargo de Presidente da República.
António José Seguro foi o primeiro a tomar a palavra. O socialista assegurou que é “em nome do futuro” que se candidata a Belém. Seguro quer “fazer de Portugal um país moderno e justo”.
“Tenho recolhido, tanto na primeira volta como na segunda apoios de vários quadrantes políticos e de pessoas que nunca se envolveram na política. Defendo uma sociedade que valoriza todos os seres humanos, que não faça discriminações. Quero ser um Presidente que une. Em Democracia o diálogo é importante e serei um Presidente da República que dialogue. É preciso haver compromissos como na área da Saúde, o acesso às habitações e acima de tudo um País moderno e justo”, afirmou.
Questionado sobre a ausência da palavra “socialismo” durante as campanhas, Seguro respondeu que “a palavra socialista não queima”, justificando que os portugueses sabem qual a ala de onde vem. “Quero ser o Presidente de todos os portugueses. Venho para unir”, salientou.
Na sua primeira intervenção, Ventura citou Aníbal Cavaco Silva para mencionar que muitos dos que votarão no próximo dia 8 de fevereiro em Seguro não o farão por apoiarem o candidato, mas sim para votarem contra Ventura.
“Cavaco Silva diz que António José Seguro é o melhor candidato. Antes dizia que era inseguro, apesar do nome. Isto não é sobre António José Seguro, é sobre cancelarem-me a mim”, frisou, sublinhando que “é a captura do sistema e de interesses do sistema”.
Seguro diz perceber “que seja um embaraço” para Ventura que apelou à direita para votar no líder do Chega, mas os políticos optaram por apoiar a candidatura do socialista. “Quero ser o Presidente de todos os portugueses e também dos eleitores do seu partido”, respondeu Seguro.
Sobre “a união de todos os portugueses” que tanto é defendida por Seguro, Ventura destacou a incapacidade de Seguro liderar e de “gerar consensos”, fazendo referência à altura em que o opositor foi líder do Partido Socialista (PS). “A única vez que liderou alguma coisa foi o PS e deixou-o na maior confusão possível e imaginária. Homem que não decide, que não tem ideia sobre nada e quem nem no PS conseguiu gerar consensos”, apontou.
Para o candidato presidencial de extrema-direita, o País não pode estar em “águas-mornas”.
Sobre o papel que terá como Presidente da República se vencer as eleições, André Ventura disse que defenderá o povo português e “não os governos”. “Se não é para fazer nada votem Seguro”, disse o candidato apoiado pelo Chega, sobre aquele que será o seu papel em Belém, em críticas ao socialista. “Sabem que António José Seguro não vai ser exigente, querem uma espécie de rainha de Inglaterra”, atirou Ventura.
Já António José Seguro defendeu que “será leal à Constituição” e vai “cooperar com o Governo em funções”. “O meu papel enquanto Presidente é exigir resultados. Vou pedir um compromisso entre todos os partidos para haver Saúde a tempo e horas”, explicou. “Eu venho ajudar para fazer”, sublinhou, referindo que os atuais problemas existentes na Saúde “não podem acontecer”.
Quanto à reforma que o Governo pretende fazer na lei laboral, se chumba a proposta, Seguro disse “que depende do que chegar a Belém”. “Se chegar como está veterei, mas tenho a expectativa que haja diálogo e tanto como sei têm havido reuniões nesse sentido. Isso é positivo”, afirmou. “Como Presidente gostaria que o debate que ocorresse na concertação social tivesse a ver com o futuro da economia”, diz queixando-se de falta de propostas para salários melhores ou para a disparidade salarial entre homens e mulheres. Se houver um acordo só com a UGT, Seguro assume que promulgaria a reforma laboral.
Sobre a proposta da reforma laboral do Executivo, Ventura voltou a frisar que a mesma “não melhora as qualificações” e que a revisão em questão “é um mau sinal para o País”. Nas palavras do líder do Chega, a referida legislação representa um “bar aberto de despedimentos e precariedade”. Ventura asseverou que caso não existam alterações, o Chega votará contra a proposta.
Sobre se é necessário alterar os poderes presidenciais, como defende André Ventura, Seguro assumiu claramente que não faz sentido. “O papel do Presidente da República é garantir a estabilidade e serei um fator de estabilidade, mas não é para manter tudo na mesma”, explicou. Já Ventura apontou que “é errado dizer que defende a revisão da Constituição por causa dos poderes presidenciais”. António José Seguro criticou o adversário por mudar de opinião, relembrando o tema inicial dos debates. “Por isso é que queria tantos debates, precisa de um debate para cada vez que muda a opinião”.
Questionado sobre a subvenção vitalícia, Seguro disse que não é preciso mudar a Constituição e não quis receber nada, após ter saído do Parlamento. “Eu poderia ter recebido subvenções e recebi zero”, atirou. Ventura questionou de seguida Seguro: “Acha bem que Armando Vara esteja a receber uma pensão vitalícia”?
Seguro voltou a defender que “não é preciso mudar a Constituição”. “Estamos como estamos porque os partidos nos últimos 50 anos fizeram das instituições bar abertos e puseram lá os amigos todos”, disse André Ventura.
“Quero clarificar que não represento aqui ninguém, nenhum partido. Estou a aqui a representar-me a mim próprio. André Ventura é que líder partidário. Como disse no primeiro debate que tivemos, está no debate errado”, disse Seguro, após Ventura ter dito que a criação da direção executiva do SNS serviu porque “o PS e PSD querem mais boys nos jobs , é uma inutilidade”. André Ventura colou ainda Seguro aos problemas da Saúde nos últimos anos considerando que o que os problemas na saúde são “resultados de PS e PSD”.
Na sua intervenção, o socialista considerou que o Presidente da República se deve certificar que o Governo apresenta compromissos duradouros.
“O objetivo essencial é Saúde a tempo e horas para todos os portugueses”, destacou.
Ventura continuou a atacar o oponente de não apresentar ideias e apontou que sabe o que fazer. “Temos de mudar a lei de bases da saúde. Isto mete medo à esquerda, a mim não me mete medo nenhum”, disse, acrescentando que a direção-executiva do SNS também devia acabar, considerando a sua “inutilidade”.
Ventura deixou mais críticas ao opositor: Eu pesquisei na internet alguma opinião sua sobre Saúde e não havia nada”. O líder do Chega disse ainda que “o partido de Seguro anda a destruir a saúde há anos” e que o adversário está “desconfortável” com essa “herança”.
Seguro interrompeu prontamente explicando que nos últimos anos esteve afastado do meio mediático, dedicando-se à sua vida privada – “[O Ventura] é pago para falar e eu sou pago para trabalhar”, atirou. Seguro relembrou ainda que Ventura está na Assembleia da República há seis anos e que só sabe criticar.
A “herança” socialista de Seguro foi novamente criticado com o tema do desemprego a entrar no debate. No tema da imigração, o socialista defendeu que é necessário “regular e controlar a entrada de imigrantes”, mas também ao nível da integração. “Os imigrantes dão um contributo essencial para nossa segurança social e economia. Sem eles o País parava””, afirmou. Ventura defendeu que quanto à integração está de acordo com Seguro, ainda que não possa haver entradas “de qualquer maneira”. “Eu não quero fechar Portugal, mas é preciso de cumprir regras”, sublinhou.
“Portugal tem de mostrar firmeza perante os Estados Unidos, Espanha, todos”. Sempre que está em causa defender Portugal temos de ultrapassar as diferenças partidárias”, disse Ventura, não respondendo à pergunta relativa à estratégia de Donald Trump em dividir e enfraquecer a Europa.
Deixou ainda criticas a Marcelo na representação de Portugal em vários, inclusive nos PALOP. “[Portugal] não se pode humilhar”, apontou.
Já Seguro, sobre a criação do Conselho da Paz criado por Trump quinta-feira passada, defendeu que Portugal “tem de reforçar a sua autonomia estratégica em matéria de segurança e defesa”, anunciando que, caso seja eleito, o seu primeiro Conselho de Estado será precisamente sobre a Defesa e Segurança. O socialista colou ainda Ventura como “amigo” de Trump.
Esta é a primeira vez, em 40 anos, que o País escolhe quem vai ser Presidente da República, numa segunda volta das eleições.